Robo Investing - "$8 trillion in your pocket"*

Luís Lobo Jordão, CFA

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Com o slogan "1000 songs in your pocket" Steve Jobs lançou o iPod em outubro de 2001. A digitalização da indústria da música estava lançada e revelou-se imparável. O balanço de poder foi alterado e os consumidores passaram a decidir quem ganhava e quem perdia. A distribuição deixou de controlar o consumidor, o qual ganhou liberdade de escolha. Apareceram várias novas empresas e morreram outras.

Tal como o sector da música, vários outros sectores sofreram o impacto da digitalização nas décadas seguintes. Muitos foram completamente reformulados, mais uma vez pela Apple de Steve Jobs, como os telemóveis e as telecomunicações em geral. Os grandes incumbentes normalmente não geram a inovação, esta vem de fora. Infelizmente, é difícil inovar em organizações hierarquizadas, burocráticas e onde o mérito nem sempre prevalece. O status quo vence.

Entretanto, o sector financeiro manteve-se à margem e a digitalização teve um impacto relativamente reduzido. Mas estão a ocorrer mudanças significativas, embora talvez não visíveis para muitos. A tecnologia, a disponibilidade de capital, a globalização e o foco nas necessidades dos consumidores estão a quebrar barreiras e a criar oportunidades, que se tornarão mais óbvias com o passar do tempo e têm o potencial de transfigurar completamente o sector financeiro.

Na 2ª conferência anual de Robo Investing em Londres (http://www.robo-investing.co.uk), no passado dia 1 de fevereiro, o ambiente foi de grande entusiasmo com as várias oportunidades que se geram nesta área. Vários tópicos foram discutidos, permitindo retirar algumas ilações para os tempos que se aproximam.

A gestão de ativos tradicional, que assume ter uma rede cativa e lida mal com as arquiteturas abertas, está especialmente exposta. A tecnologia permite servir de modo mais eficiente os consumidores, tanto ao nível dos resultados obtidos como ao nível dos custos, pelo que as propostas de valor podem e devem ser totalmente repensadas. A transparência de custos das soluções propostas será cada vez mais um factor e deixará de ser possível os consumidores não saberem os custos dos produtos financeiros que lhes são propostos e as alternativas ao seu dispor.

Ao contrário do que geralmente se afirma, o Robo Investing/Advising não consiste obrigatoriamente num robô a decidir os investimentos. Claro que tem sido amplamente demostrado que nos investimentos, como em muitas outras áreas, a utilização de regras simples de decisão de um modo sistemático gera tendencialmente melhores resultados do que deixar a decisão à discricionariedade do gestor, sujeito a todo um conjunto de ‘erros’, bem conhecidos e estudados pelo campo de Behavioral Finance. E a evolução da gestão ativa para gestão passiva e, nos últimos anos, para Smart Beta, mostra também claramente que nem todos no mercado estão desatentos. Robo Investing/Advising consiste, sim, na disponibilização de serviços de investimento tirando partido da tecnologia para a sua construção e distribuição, com ganhos significativos de eficiência, que são passados para os clientes sob a forma de menores custos e melhor serviço. Alguns serviços chegam a ser gratuitos. O cliente e os seus objectivos são colocados em primeiro lugar e a transparência é uma característica muito presente. Considero inclusivamente que esta área pode dar um contributo significativo aos reguladores no seu esforço de defesa dos consumidores de produtos financeiros e transparência de custos e conflitos de interesse.

É claro que esta evolução implicará reduções significativas das margens de lucro dos incumbentes. Não será possível manter modelos com custos elevados sendo as vantagens das alternativas tão óbvias. Naturalmente que nem todos os novos players sobreviverão, pois alguns não atingirão a escala necessária (há muitas similitudes com a bolha tecnológica do ano 2000). A indústria terá forçosamente de mudar e as decisões estratégicas serão extremamente exigentes.

Mas para quem pensa fora da caixa, os tempos são extremamente entusiasmantes! 

 

* “BI Intelligence, Business Insider's premium research service, expects robo-advisors to manage $8 trillion globally by 2020.” in Business Insider, 10.06.2016 (http://www.businessinsider.com/the-2-trillion-opportunity-for-robo-advisors-2016-6)

Artigo escrito para a Funds People Portugal